Médico vira vítima de deepfake e expõe falhas das redes sociais

Médico vira vítima de deepfake e expõe falhas das redes sociais

Um caso envolvendo o Dr. Maurice Sholas, médico especialista em reabilitação pediátrica, chamou atenção para um problema crescente no ambiente digital: o uso não autorizado de deepfakes gerados por inteligência artificial para vender produtos em nome de profissionais de saúde. O médico, que tem presença on-line mas se descreve como "o mais velho da turma" nas redes sociais, descobriu em 2025 um vídeo com seu rosto e um áudio falso promovendo suplementos vitamínicos - conteúdo que ele nunca gravou nem autorizou.

Como o caso veio à tona

Tudo começou quando um amigo enviou ao Dr. Maurice um vídeo circulando no TikTok, perguntando se era ele mesmo. "Fiquei perplexo", disse o médico ao Medscape. "Parece comigo, mas a voz não é a minha. Eu nunca falei sobre esse assunto na internet." O material, que depois se espalhou também para X e Instagram, chegou a acumular mais de 19 mil visualizações somente na plataforma de Elon Musk, segundo os números apurados pela reportagem original.

Ao tentar denunciar o conteúdo, o Dr. Maurice enfrentou resistência das próprias plataformas. No TikTok, a resposta inicial foi de que ele não tinha legitimidade para contestar o vídeo, já que "não era ele" tecnicamente na gravação. No X e no Instagram, as denúncias foram ignoradas ou tratadas como questão de liberdade de expressão.

Um problema que preocupa a medicina organizada

O caso não é isolado. Segundo o Dr. John Whyte, presidente-executivo da American Medical Association (AMA), relatos de médicos vítimas de deepfakes têm se multiplicado desde 2025. "O que acontece com os deepfakes de IA é que, na verdade, eles roubam o seu rosto e a sua voz, e se passam por você no ambiente on-line ou nas redes sociais", afirmou.

O Dr. Siwei Lyu, diretor do Institute for Artificial Intelligence and Data Science da University at Buffalo, nos EUA, reforça que o fenômeno já atinge escala preocupante: "Já estamos vendo rostos e vozes de médicos reais sendo usados para promover suplementos, tratamentos questionáveis e outros produtos sem o conhecimento deles. Alguns desses vídeos já receberam milhões de visualizações."

Resposta legislativa ainda incompleta

Em abril de 2026, a AMA divulgou um marco normativo contra deepfakes e se uniu a entidades como o sindicato SAG-AFTRA e o YouTube no apoio ao NO FAKES Act, projeto de lei que cria um direito federal de propriedade intelectual nos EUA contra réplicas digitais não autorizadas. O Comitê Judiciário do Senado aprovou uma versão atualizada do texto em junho de 2026, embora o Dr. John deseje tramitação mais rápida.

Nem todos apoiam a proposta. Becca Branum, do Center for Democracy & Technology, alerta que o mecanismo de remoção previsto na lei "poderia ser usado de forma abusiva para censurar sátiras, comentários, notícias e outras formas de expressão protegidas pela lei, inclusive informações sobre saúde e medicina".

Sem solução sistêmica à vista

Enquanto a legislação avança lentamente, o Dr. Maurice segue monitorando sua própria imagem na internet. Ele chegou a descobrir que um conhecido comprou os suplementos por acreditar que a recomendação era verdadeira, e rastreou o produto até um centro de distribuição em Houston, sem conseguir identificar a empresa responsável. A alternativa sugerida - contratar uma agência de relações públicas por cerca de US$ 20 mil para "limpar" sua imagem on-line - mostrou-se inviável financeiramente.

"Não existe uma solução sistêmica, e não sei como me proteger caso alguém faça a mesma coisa no futuro", resumiu o médico, que recomenda a outros profissionais de saúde buscar apoio em sociedades médicas locais diante de casos semelhantes.